
Uma característica minha é ser predominantemente emocional.
Existem alturas da minha vida em que acho que é uma qualidade, outras porém fazem-me crer que é um defeito. Bom ou mau, certo ou errado, é algo muito meu e com o qual tenho de aprender a viver.
Praticamente toda a gente à minha volta me pressiona para crescer. Ser a adulta que todos esperam. Alguém com uma idade mental igual ou superior à idade cronológica que tenho. Até agora não consegui sê-lo, uma adulta isto é. Sempre me senti mais nova que a idade que tenho. Estou como que presa na terra do nunca. Sem ninguém perceber, uma noite de lua cheia saí da minha cama e voei para lá. Encontrei um sítio onde me era permitido não amadurecer.
Sou uma pessoa estranha, tenho noção disso. Em conversas com amigos percebi que era a única que gostava de regressar ao passado em vez de caminhar rumo ao futuro. Sempre senti, no mais íntimo de mim, que ser adolescente é o melhor que esta vida me tem para oferecer. A altura em que nos abrimos mais para o exterior, em que tentamos definir quem somos e quem queremos ser; a fase em que quase tudo nos é permitido, uma vez que é terra de ninguém: ainda não se é adulto mas também já não se é criança. Nesta etapa somos mais rebeldes, saímos mais, falamos mais alto, experimentamos mais coisas e damos mais dores de cabeça aos nossos pais. O choque de gerações é inevitável porque nenhum dos intervenientes se consegue descentrar e ver a perspectiva do outro. Os pais esquecem-se do que é ser adolescente e tentam a todo custo proteger-nos das crueldades que há lá fora. Fora das paredes do lar, o sítio que com tanto cuidado e dedicação criaram para que se transformasse um lugar seguro. O adolescente, porém, sente necessidade de descobrir o que existe para lá desse lugar seguro, e com insanidade temporária acredita que nada de mal lhe pode acontecer. Não há malfeitor, doença ou acidente que o possa derrubar, é invencível.
Agora que olho para trás, não é estúpido pensar-se assim, desde que as experiências que se procuram sejam dentro de limites razoáveis, claro. Tou a falar de violadores, ladrões, doenças sexualmente transmissíveis, toxicodependências e acidentes rodoviários. Pobres pais... eles sabem que existe uma infinidade de coisas más que podem acontecer connosco, os seus rebentos. Quando saía de casa à noite podia ser violada num beco escuro, ser assaltada por um toxicodependente que me picava com uma agulha virulógica, beber álcool até entrar em coma e cair redonda num chão cheio de pedras que me podiam matar por traumatismo craniano. Os pais menos medrosos e mais sensatos podiam imaginar apenas que, quando saía com o meu namorado, ia acabar no banco traseiro dum carro, ou num qualquer vão de escada, a ter relações sexuais desprotegidas e ia ficar grávida, ou pior ainda, seropositiva.
Fiz algumas dessas coisas, não todas, e felizmente ainda tou aqui para contar a história. Por sorte, ou destino, sobrevivi a essa fase contorbada sem nenhuma mazela muito grave. E por mazela muito grave entenda-se não ter engravidado, ficado seropositiva ou toxicodependente, também não tive nenhum coma alcoólico nem fui parar a uma cama de hospital porque aceitei boleia de amigos que já tinham bebido mais do que a conta.
Mas não sobrevivi completamente airosa da coisa... Tive de fazer testes de gravidez, tomar pílulas do dia seguinte, análises às doenças sexualmente transmissíveis, e o meu coração foi partido tantas vezes que já lhes perdi a conta. Sempre pensei que era burrice minha voltar a atirar-me de cabeça numa relação, depois de saber o que é a dor aguda duma perda dum ser amado (Sim, cá está ele, o AMOR... Como fugir a ele se é a coisa que faz mais sentido na pu** desta vida?!?!). Hoje percebo que não é burrice, é coragem. Quem não ama a 100% não ama, e quem fecha o coração a sete chaves com medo que o partam... não vive, sobrevive e vê os outros viverem.
Moral da história: pais deste mundo - eduquem de forma a que os vossos filhos possam voar com uma rede de segurança por baixo (eu sei que é fácil falar enquanto não me cabe a mim fazê-lo, tenho perfeita consciência que um dia que seja mãe vai ser um ver se te havias lol); filhos na puberdade, adolescência ou adultescência (uma nova categoria criada para explicar casos como eu) - experimentem o que o mundo tem para vos oferecer, mas com cabecinha. Coisas más acontecem! Não é só aos outros. Não se fiem na sorte, porque nunca se sabe quando ela nos abandona. Mas acima de tudo voem...